Vitor, o goleiro de decisões dentro e fora de campo

De muitas histórias que o futebol proporciona todos os dias para as pessoas, a do goleiro Carlos Vitor da Costa Ressurreição ou simplesmente Vitor, mostra uma carreira de grandes decisões e conquistas dentro e fora das quatro linhas do gramado. No futebol paranaense, o arqueiro marcou seu nome no Arapongas EC, é ídolo do Londrina Esporte Clube e acumulou passagem pelo PSTC. Hoje, o atleta não está atuando por conta de sua opção religiosa de guardar os sábados e acaba de lançar seu primeiro livro ‘Vitor, o goleiro – Verdade de campeão’, onde já tem o segundo volume em finalização.

O goleiro tem uma grande identificação com o torcedor do Londrina. Foto: Jefferson Bachega/ Redação em Campo.

Nascido no Rio de Janeiro e vivendo grande parte de sua infância no subúrbio carioca, aos 12 anos chegou a Salvador (BA) para poder concretizar o sonho de ser jogador de futebol. Com passagens por Vitória (BA), clube onde começou a carreira, Ponte Preta (SP), Atlético Goianiense (GO), Portuguesa (SP), Bragantino (SP), ABC (RN), São José (RS) e Novo Hamburgo (RS), além de ter passagens pelas categorias de base da Seleção Brasileira. O primeiro contato de Vitor com o futebol paranaense aconteceu em 2012, quando foi contratado pelo Arapongas e marcou um período de grandes conquistas para o clube Alviverde.

Pelo clube da cidade dos pássaros, o arqueiro ajudou o clube a ser terceiro colocado na classificação geral do Campeonato Paranaense de 2012, garantindo uma vaga na Copa do Brasil do próximo ano e sendo campeão do interior contra o Cianorte. “Nós fizemos uma campanha inesquecível para a cidade, o pessoal até hoje lembra, o povo abraçou o time, as coisas foram dando certo, o time encaixou, então fomos terceiro no geral do campeonato, fizemos uma campanha histórica, pois ganhamos o título do interior, ganhamos do Cianorte nos pênaltis, ganhamos a vaga na Copa do Brasil do outro ano. Foi bom também, pois mostrei meu trabalho aqui no Paraná, na época despertou até interesse do Atlético Paranaense, mas não acertamos e em 2013, no final do ano, acabei vindo para o Londrina”, relembrou Vitor.

Londrina Esporte Clube

Se Vitor tem um carinho enorme por cada clube que passou, um deles em especial desperta um sentimento diferente. Vitor chegou ao Londrina no final de 2013, para ser o substituto do goleiro Danilo, que havia acabado de se transferir para a Chapecoense. No gol Alviceleste, Vitor foi titular em 2014 e 2015, além de ficar no clube até maio de 2016, quando se encerrou o seu contrato.

Vitor é um dos ídolos da camisa 1 do Londrina. Foto: Robson Vilela/ Redação em Campo.

Em 2014, o goleiro sofreu uma grande pressão de ser o substituto de Danilo, foi contestado, porém, aos poucos mostrou seu trabalho e acabou sendo peça fundamental no título do Campeonato Paranaense de 2014. “Sempre lidei muito bem com a pressão, sempre gostei de jogar sobre pressão, isso me ajudava e forçava a dar o meu melhor. Sabia da história do Danilo, foi um grande goleiro aqui e tinha feito uma bela história, mas vim disposto a fazer a minha história e com humildade conquistar o meu espaço. Aos poucos fui ganhando a confiança do torcedor, no começo foi mais difícil, mas depois o time foi se ajustando, porém, só foi encaixar no último jogo da primeira fase, contra o Coritiba, ganhamos de 2 a 0 aqui no Estádio do Café, a partir dali, o time todo ganhou confiança”, afirmou o agora também escritor Vitor.

Depois de se classificar, o Tubarão ainda eliminou o JMalucelli nas quartas de final e enfrentou a famosa “Batalha do Café”, contra o Atlético Paranaense para garantir a vaga na final. “O jogo contra o Atlético aqui foi muito especial, porque tivemos de ter uma força de vontade e superação muito grande. Estávamos ganhando o jogo de ida por 1 a 0, em Curitiba, nosso time era melhor que o deles, o Bidía foi expulso, não sabemos lidar com isso e acabamos sofrendo três gols. Nós sabíamos que poderia reverter o resultado aqui no Café, tínhamos uma estratégia e logo tomamos um gol, pois saímos de qualquer jeito, aquela ânsia de ganhar o jogo e tomamos o gol, para mim, aquilo ali foi uma inspiração muito grande, porque tomamos 3 a 1 fora e 1 a 0 em casa, mas no final foi muito bom da forma que aconteceu, empatamos ainda no primeiro tempo e viramos no segundo e fazendo três gols muito rápido”, disse o arqueiro.

Ainda sobre aquele jogo, o goleiro comentou da participação de Adriano, o imperador, que teve poucas chances, mas assustou principalmente com uma bola no travessão na reta final de partida. “Ele pegou acho que duas ou três vezes na bola, porque estava muito marcado, o Gilvan e o Dirceu não deixava ele pegar na bola, mas a bola que ele pegava, ele fazia a diferença”, lembra Vitor com bom humor. Eliminando o Furacão, o Alviceleste tinha pela frente o Maringá FC e fez dois grandes jogos, levando a decisão para as penalidades e assim, fazendo a estrela de Vitor brilhar.

No primeiro jogo, 2 a 2 no Estádio do Café, com um gol em que muito viram uma falha do goleiro, no jogo em Maringá, novo empate por 1 a 1, uma partida memorável para Vitor e a decisão nos pênaltis, onde o arqueiro defendeu uma cobrança e viu Cristiano chutar para fora a última penalidade. “Aquele segundo gol foi uma bola muito difícil, um chute de primeira com muita gente pela frente, fiquei muito revoltado. Me foquei só no jogo, a gente treinava muito pênaltis e falei ‘ se vocês fizerem os gols, pelo menos um eu defendo’, e graças a Deus foi o que aconteceu, no final foi muito especial”, enfatizou o camisa 1 daquela decisão.

Vitor continuou suas boas atuações durante a Série D, alcançando junto da equipe o acesso para a Série C, em 2015, fez um ótimo Campeonato Paranaense e Copa do Brasil, mas a Série C de 2015 foi o principal momento da carreira do goleiro. O Londrina acabou com o vice-campeonato da competição, conseguindo outro acesso, agora para a Série B e ainda foi escolhido o melhor jogador da Série C de 2015. “Para o ano de 2015 ser mais especial, só faltou o título da Série C, mas conseguimos nosso principal objetivo que foi o acesso”, comentou o goleiro.

O goleiro Vitor na meta do Londrina contra o FC Cascavel, pelo Campeonato Paranaense de 2015. Foto: Robson Vilela/ Redação em Campo.

Ainda durante a Série C, Vitor ficou seis partidas seguidas sem sofrer gols, num total de 540 minutos sem ser vazado. “Nós ficamos seis jogos sem sofrer gols, especialmente os seis jogos mais difíceis, os seis jogos finais, sendo o último jogo da primeira fase, os jogos de quartas e semifinal, além da primeira partida da final”, recordou Vitor. No final daquele ano, vários acontecimentos mudaram a vida e carreira do goleiro. Em dezembro, durante suas férias, o goleiro foi batizado pela religião Adventista, onde quem é adventista faz a guarda da sexta-feira após o pôr do sol e durante todo o sábado até o pôr do sol.

Com isso, Vitor fez a decisão de seguir sua religião mesmo que isso influenciasse na sua carreira, que naquele momento estava o auge. Coincidindo com este fato, o arqueiro recebeu uma proposta irrecusável da Chapecoense, para jogar a Série A, onde receberia quatro vezes mais que no Londrina. Vitor fez suas exigências e o clube catarinense não aceitou. Como Vitor tinha contrato com o Tubarão até maio de 2016, perdeu espaço no clube e não fez nenhuma partida como titular naquela temporada.

Segundo Vitor, o gestor do Londrina, Sérgio Malucelli aceitou as exigências do goleiro, mas que tinha de passar pelo aval da comissão técnica, que acabou não garantindo o revezamento com Marcelo Rangel e também a não renovação de seu contrato. “Durante esses cinco meses, foi importante porque o Sérgio Malucelli percebeu que não havia nenhum interferência dessa minha crença em relação ao meu rendimento e treinamento. Entenderam que na Série B, metade dos jogos seriam no sábado e que eu acabaria ficando fora, até fiz a proposta de revezamento, na época o Barcelona estava fazendo com o Cláudio Bravo e o Ter Stegen, poderiam fazer isso aqui, já que o Marcelo também era um homem de confiança do Tencati, para a gente seria ótimo, pois somos amigos, os dois estariam jogando e em forma, então seria muito bacana, a gente não tinha vaidade nenhuma, eles não entenderam isso, acabou meu contrato e voltei para Salvador”, afirmou Vitor.

Após não ter seu contrato renovado, Vitor retornou a Salvador, mas não conseguiu um clube para trabalhar que aceitasse a sua condição. Em novembro de 2016, com o acidente da Chapecoense, onde 71 pessoas morreram na queda do avião na Colômbia, Vitor entendeu que a escolha por sua religião o tirou daquele momento trágico para o futebol brasileiro.

PSTC

Em dezembro de 2016, o atleta recebeu uma oferta do PSTC, para ser goleiro do clube no Campeonato Paranaense e o clube, que estava sediado em Cornélio Procópio, aceitou todas as condições do goleiro. Infelizmente Vitor sofreu duas lesões no Leão do Norte e fez poucas partidas, mas agradeceu todo o clube pela oportunidade. “Foi muito bacana pela forma que aconteceu, não procurei nenhum time, eles que me procuraram, deu para perceber o respeito que tiveram, de respeitar minha crença, eles aceitaram e para mim foi fantástico. Cheguei muito empolgado, que quis treinar demais e meu corpo acabou não aguentando, foi muito legal ter o contato com as pessoas do clube, como se dedicam com o pessoal da base e infelizmente não pude ajudar em campo, tive uma lesão séria no braço e fiquei muito triste por isso”, lamentou o goleiro que fez poucas partidas pelo PSTC.

Carreira de escritor e futuro

Após sair do PSTC em abril de 2017, Vitor não acertou com mais nenhum clube e surgiu a oportunidade de escrever um livro, onde conta várias histórias de sua época no futebol. “Vitor, o goleiro – Verdade de campeão”, foi lançado agora no início de 2018, na forma do primeiro volume e uma segunda edição já está em processo de finalização. No primeiro volume, o arqueiro fala de toda sua carreira até final de 2015. E já adiantou que no segundo volume, explica o processo da negociação com a Chapecoense, sua escolha religiosa e até os dias de hoje.

Vitor escreveu e lançou o primeiro volume do seu livro e já está finalizando o segundo volume. Foto: Gustavo Oliveira/ Londrina EC Oficial.

Por tudo que viveu no Londrina, Vitor tem um desejo de ainda defender as cores do Tubarão e disse que tem como se fosse um tratado com o gestor Sérgio Malucelli, de que se o Alviceleste subir para a Série A, ele possa voltar ao time paranaense e quem sabe futuramente encerrar sua carreira no Londrina. “Falei para o Sérgio, ‘se voltar para a Série A, quero voltar’, na Série A tem poucos jogos de sábado, já fiz a minha deixa para ele e ele disse que se subir, vamos conversar”, e complementou. “Tenho esse desejo, esse sonho de quem sabe um dia voltar, ainda sonho em voltar a vestir a camisa do Londrina, quem sabe para encerrar a carreira, em forma até simbólica”, enfatizou o goleiro de 33 anos.

Pessoas importantes que passaram pela vida de Vitor no Londrina: Edson Sabiá e Cláudio Tencati

O arqueiro tem um carinho especial por duas pessoas que conviveram com ele no Londrina, o preparador de goleiro Edson Sabiá e o técnico Cláudio Tencati. Sobre Sabiá, Vitor lembrou do sucesso dos goleiros do Tubarão e que ele tem grande parte nisso. “Foi um profissional que teve grande influência no nosso trabalho, trabalhava diretamente com a gente e hoje você vê os goleiros que passaram recentemente no clube que é um reflexo do trabalho dele também”, disse Vitor.

Junto com Alan (esq), Guilherme (cent.) e César (dir), Vitor lançou seu livro em Londrina. Foto: Gustavo Oliveira/ Londrina EC Oficial.

Sobre o técnico Cláudio Tencati, quem pediu a sua contratação e bancou nos momentos mais difíceis. “Para mim foi um cara muito especial, foi um treinador que apostou no meu trabalho, na sequência também, assim como ele também teve essa sequência no Londrina, ele apostou no meu trabalho, por isso, sou muito grato a oportunidade que ele me deu, a confiança, pela manutenção nos momentos difíceis e graças a Deus os momentos bons foram maiores que os difíceis”, finalizou Vitor.

Foto: Robson Vilela/ Redação em Campo.

Siga em:
Em amistoso, Prudent
Coritiba vence o Atl

Jornalista, formado na Unopar em 2015. Nasci e moro em Londrina. Apaixonado por esportes. Gosto de praticar aquele futebolzinho de final de semana. Futebol não é apenas um esporte, mas sim uma forma de viver.

Classifique este artigo