Torcedores órfãos: A ausência do clube de coração

Dentro da história do futebol paranaense, muitos clubes de destaque ou não, já fecharam as portas por algum motivo. Dentre as situações mais comuns, estão o afastamento, temporário ou permanente, a fusão com outros times ou até mesmo a extinção.

Redação em Campo conversou com quatro torcedores que de alguma forma conviveram ou até hoje convivem com a ausência do seu clube de coração. Para alguns, o lugar não foi preenchido e para outros, existe a simpatia ou a torcida pelo que o time se transformou.

“Continuo sendo União, embora não exista mais, a não ser na memória”

Nascido no interior e desde 1977, morador da capital paranaense, Carlos Alberto Bentivenha, o Beto como é conhecido na cidade de Bandeirantes (PR), tem 66 anos, é aposentado, mas cultiva um reflorestamento de eucaliptos, na região de Curitiba. O bandeirantense se orgulha para dizer que é torcedor do Caçula Milionário, o União Bandeirante Futebol Clube.

O aposentado Carlos Alberto Bentivenha, tem o União Bandeirante no coração e que este lugar, nenhum outro clube irá ocupar. Foto: Arquivo Pessoal.

O clube de Bandeirantes surgiu no ano de 1964, para ser exato, no dia 15 de novembro, com o nome de Usina Bandeirante Futebol Clube. Pouco tempo depois, houve a fusão com o Guarani e então o nome que ficou conhecido no Paraná por pouco mais de 40 anos.

“Enquanto criança, a gente corria nos campos de várzea, sempre teve aquele interesse sobre o futebol, naquela época existia o Guarani, que é antecessor do União, então a família Meneghel resolveu montar essa equipe e começamos a frequentar também, junto com os colegas e os familiares, porque Bandeirantes é uma cidade pequena, quando tinha um evento como na época, todo mundo ia para o campo e se encontrava ali e foi assim que comecei a torcer pelo União”, disse Carlos Alberto. 

Entre as recordações de Carlos Alberto Bentivenha, um cartão de natal de 1967, com foto do elenco do União Bandeirante Futebol Clube. Foto: Arquivo Pessoal.

Com menos de 10 anos desde a fundação, o Caçula Milionário conquistou dois vice-campeonatos, ambas tendo o Coritiba como campeão. Na campanha de 1971, o União teve o artilheiro da competição, o atacante Tião Abatia, que fez 19 gols naquele campeonato. 

Para Beto, além do artilheiro Tião Abatia, outro atleta que marcou com a camisa Alvinegra foi Paquito. “Veja, não sei se por serem famosos, destacaria o Abatia e o Paquito, foram os dois que marcaram, até jogaram no Coritiba, são as pessoas que vieram na lembrança, que eu achava que jogavam bem”, relembrou Carlos Alberto Bentivenha. 

Uma das formações mais famosas da história do União Bandeirantes, com o ídolo de Beto entre os atletas, Tião Abatiá. Foto: Arquivo Pessoal.

Para o adversário, não era nada fácil jogar no Estádio Comendador Luiz Meneghel, também conhecido como Vila Maria, a pressão era grande e quando a torcida não assustava, o presidente Serafim Meneghel era conhecido por seu folclore e as histórias de dar alguns “tiros” para o alto, pressionando a arbitragem e o time visitante. 

O Estádio Comendador Luiz Meneghel sempre recebia bons públicos nos jogos do Caçula Milionário e pressionava o adversário com as arquibandas próximas ao gramado. Foto: Tribuna do Vale.

“A pressão ali era grande, isso porque era um estádio acanhado, inclusive recordo da época que o que separava a torcida do gramado era de sarrafo, não tinha alambrado, aí quando o União Bandeirante começou a disputar jogos mais importantes, foi necessário fazer o alambrado”, destacou Beto.

Além da pressão da torcida, após as vitórias, a torcida do clube debochavam dos adversários derrotado em forma de caricaturas. “A torcida tinha uma escola de samba, que era do Nestor e a cada vitória do União, tinha um cartonista que fazia caricaturas. Recordo que inclusive do Londrina, tinha um bandeirantes em cima de um tubarão e com o placar da vitória do União. O Seleto de Paranaguá tinha uma baleia com um bandeirante em cima, essas coisas”, recordou Carlos Alberto. 

Mesmo após sair da cidade do Norte Pioneiro em 1977, Bentivenha continuou acompanhando o União Bandeirantes e sempre foi aos jogos do clube na capital. “Eu ia nas partidas aqui, então eu acompanhava. Juntamos um grupo, a gente se reunia nos finais de semana para ir nos jogos, quando o União jogava aqui em Curitiba”, enfatizou o torcedor do Caçula Milionário. 

Após o bom início, o União só voltou a ter destaque na elite paranaense em 1989, quando novamente teve o Coxa pela frente e não conseguiu erguer a taça. Nas semifinais, o União eliminou um dos seus maiores rivais, o Matsubara em três partidas. Superando o rival, as finais aconteceram na capital. Na partida de ida, 0 a 0. No segundo jogo, o Alviverde levou a melhor com 2 a 0 e levantou o caneca, mais uma vez ficou a frustração do clube interiorano.

Pela quarta vez, o União acabou ficando com o vice-campeonato estadual e novamente para o Coritiba. Imagens: RPC/ Globo. Página: Grupo Helênicos.

Com o vice do Campeonato Paranaense, o União pôde disputar a Copa do Brasil de 1990 e de cara, enfrentou o São Paulo. Jogando a primeira no seu “Caldeirão”, o Caçula Milionário perdeu por 1 a 0 para um equipe que tinha Cafu e Raí. Na volta, no Estádio do Morumbi, nova vitória do Tricolor paulista, agora por 2 a 0. 

A última grande chance de título do União Bandeirante aconteceu no estadual de 1992, na chamada “Final Caipira”, contra o Londrina. Outra vez por não ter capacidade mínima para receber a final, o Caçula Milionário se viu jogando as partidas na casa do rival. Após o primeiro jogo ser 0 a 0, o União sentiu o gosto do título abrindo 2 a 0 dentro do Estádio do Café, mas com um gol no último minuto, o Tubarão forçou a terceira partida. 

“O estádio em Bandeirantes não comportava [a disputa da final], por isso que foi para Londrina, eu acompanhei a partida, mas não fui para Londrina, muito do que a gente leu a respeito da partida”, argumentou Carlos Alberto sobre a última final do União. 

Na terceira partida, o Alviceleste venceu por 1 a 0 e decretou mais um vice-campeonato para o clube de Bandeirantes. Para Beto, a época de ouro do União foram entre as décadas de 80 e 90. “Foi o período áureo do União, neste período, os jogos que tiveram em Curitiba, na última decisão que assisti foi contra o Coxa”, afirmou Bentivenha.

Na terceira partida, o União Bandeirante sofre o revés contra o Londrina e fica com o vice-campeonato de 1992. Imagens: RPC/ Globo. Página: Flávio Frim.

Novamente classificado para a Copa do Brasil, o Caçula Milionário pega outra pedreira, o Grêmio na segunda fase. Na fase inicial, o União eliminou o Brusque (SC), empatou em casa e venceu fora. Contra o Tricolor gaúcho, derrota por 4 a 0, no Estádio Luiz Meneghel e nova derrota em Porto Alegre, por 2 a 1.

A mais de 400 km da cidade do clube do coração, Carlos Alberto nunca deixou de acompanhar o União, mesmo na época em que as únicas informações só vinham através do rádio ou jornal impresso. “Naquela época, a Rádio Clube paranaense fazia toda a cobertura dos jogos, aqui não pegava a rádio de Bandeirantes, quando não tinha transmissão, a gente ficava agoniado para saber o resultado, o placar. Então era assim que funcionava, com os contatos que a gente tinha e a Folha de Londrina, circulava aqui em Curitiba, então íamos descobrir como foi e o que tinha ocorrido”, destacou Beto.

Com problemas financeiros e pouco apoio, em 2006 o União pediu afastamento do futebol para nunca mais voltar. De longe, Carlos ainda sente falta do seu clube de coração. “Continuo sendo União, embora não exista mais, apenas na memória”, e complementou. “Guardadas as suas proporções, para mim, era o máximo dos times, então é insubstituível, não tem outro que venha a substituir, a minha definição é não torço para outro time”, enfatizou.

 “É a sensação de perda, é a sensação de que nunca mais você vai ver aquilo, puxa vida, será que o pessoal não se une e levanta novamente o União? Então, os colegas que tenho em Bandeirantes ainda, comentam que falta que faz o União e que tinha que voltar o União, mas você sabe que não tem recurso, não tem como, vamos ser realista”, disse Carlos Alberto Bentivenha.

Dizendo ser bairrista, Beto não tem um clube, mas acaba torcendo pelas vitórias dos clubes paranaenses nos jogos e competições que disputa. Algo que sempre animou Carlos Alberto foi o “Clássico Algodão Doce”, entre União Bandeirante e Matsura. Conhecido pelo cultivo do algodão, Cambará era a cidade do Matsubara e do açúcar da usina de Bandeirantes, surgiu o nome do clássico. 

Os esforços para acompanhar um Clássico do Algodão Doce, marcou muito Carlos Alberto, que foi recompensado com a vitória do União por 2 a 1. “Um jogo contra o Matsubara, por serem cidades bem próximas, havia uma rivalidade com o Matsubara, um jogo que marcou para mim foi contra o Matsubara. A turma se reuniu e decidir ir para Bandeirantes e fomos para o jogo, terminou 2 a 1 para o União, mas não me recordo o ano”, finalizou o torcedor do Caçula Milionário, Carlos Alberto.

“Os domingos não são mais os mesmos sem a Platinense”

Os finais de semana não são mais os mesmo na pacata Santo Antônio da Platina, no Norte Pioneiro, quase na divisa com o Estado de São Paulo, desde 2014. O clube orgulho da cidade, a Sociedade Esportiva Platinense, se licenciou do futebol e nunca mais rolou a bola no Estádio José Eleutério da Silva.

Mais difícil ainda que não poder mais ver o clube do coração, é também não acompanhar o dia-a-dia da SEP, como o radialista José Maria Alves Ferreira, de 58 anos. Por mais de três décadas, Zé Maria, como é conhecido, esteve junto com o clube da cidade.

Torcedor da Platinense, o radialista José Maria Alves Ferreira com a camisa do Athletico Paranaense, que tem as mesmas cores do orgulho de Santo Antônio da Platina. Foto: Arquivo Pessoal.

A Platinense foi fundada em 25 de maio de 1953, mas começou a ganhar destaque apenas após se juntar com outro clube da cidade, o Agroceres Futebol Clube, no início da década de 1980. “Agroceres era o time profissional da cidade, depois se tornou Platinense, era uma paixão local, uma paixão regional, isso fez com que a gente torcesse pela Platinense, fosse ao estádio, até minha proximidade com a rádio, de fazer jogos, aproximar do dia-a-dia, conhecesse os jogadores, cobrisse os treinamentos e as grandes campanhas na década de 80”, destacou sobre o início do clube.

Zé Maria lembrou que desde criança comparecia ao estádio acompanhando os jogos do Agroceres e posteriormente da Platinense. Em 1980, ele casou a torcida com o trabalho, quando iniciou sua trajetória em uma rádio local. Do Norte Pioneiro, Santo Antônio da Platina tinha uma das maiores médias entre os clubes da região, sempre levando bons públicos. 

Para seis mil torcedores, o Estádio José Eleutério da Silva, fervia em dias de jogos da SE Platinense. Foto: Arquivo Pessoal.

“Aqui na região, inclusive tinha o Matsubara naquela época de ouro, o União Bandeirante, o Comercial [Cornélio Procópio], mas em Santo Antônio era onde dava mais público, por ser uma região grande, várias cidades pertinho, o estádio estava quase sempre lotado, ao domingos a tarde, era muita gente torcendo, gritando, incentivando a Platinense, os jogos normalmente começavam às 15h30 ou 16h, por volta das 14h, o estádio já estava quase lotado. A Platinense era o orgulho da nossa região, da nossa cidade enquanto existiu”, descreveu o torcedor e radialista.

O início da época de ouro do clube Vermelho, Preto e Branco foi em 1985, quando foi campeão da Segunda Divisão do Campeonato Paranaense. Dividido em zonas por região, em turno e returno, a Platinense levou a melhor e conquistou a competição. “Em 1985, montaram um time e a Platinense com merecimento, subiu e ganhou o título. Um time muito forte”, afirmou José Maria.

No ano seguinte, de 1986, a Platinense manteve a base do time campeão de 85 e chegou ao quadrangular final do 1º turno, acabando na quarta colocação. Não conseguiu manter a mesma campanha no 2º turno, onde ficou na 10ª colocação.

Em 1987, uma campanha modesta e apenas o oitavo lugar. No ano seguinte, outra boa campanha para a história do clube, por um ponto que a Platinense não avançou às semifinais, encerrando a participação com o 5º lugar. “Nessa época foi o auge, foram ali que surgiram os grandes jogadores da Platinense, que jogaram depois em Atlético, Coritiba, Paraná e também para o Brasil inteiro”, recordou o radialista.

Partida de ida entre Platinense e Coritiba, quartas de final do Campeonato Paranaense de 1989, em Santo Antônio da Platina. Página: Grupo Helêncios

Em 89, a Platinense conseguiu a classificação para a 2ª fase do Paranaense, em um grupo mais difícil com: Atlético, Coritiba, Colorado EC, Londrina, Grêmio Maringá, entre outros. Porém, nas quartas de final, teve o Coritiba pela frente, ficou no 1 a 1 em casa e perdeu por 1 a 0 na capital. 

Um dos grandes momentos do clube de Santo Antônio da Platina, foi em 1989, quando parou nas quartas de final do estadual, para o Coritiba. Foto: Arquivo Pessoal.

No início da década de 1990, a SEP ainda disputou alguns estaduais, mas nunca com grandes campanhas. Sua última vez na elite estadual, foi em 1997, quando terminou na penúltima colocação, porém, não disputou nenhuma competição oficial nos anos seguintes. 

Com parcerias frustrantes, o clube foi sumindo até a desaparecer. A última competição oficial da Platinense foi a Terceira Divisão do Paranaense em 2013, quando a equipe do Norte Pioneiro foi eliminada após um W.O. “A Platinense era tocada pelo comércio, que é muito forte aqui e pela Prefeitura, com o tempo, isso deixou de existir, não se tinha mais força para tocar um time profissional, foi tudo ficando muito caro e a Platinense não tinha como se manter”, argumentou o torcedor. 

Oficialmente em 2014, o clube pediu licença junto a FPF e não voltou mais, para a tristeza da torcida apaixonada do clube, que viu o estádio ficar vazio e sem jogos oficiais. “O pessoal vinha, tocava o time, não dava certo, a partir de 2010, o time disputava a Terceira Divisão, dando W.O, deixando de cumprir as obrigação que tinha, isso é muito triste para a cidade, pois a Platinense levava o nome de Santo Antônio da Platina”, afirmou José Maria.

Sobre não ter o clube que aprendeu a torcer desde criança, o sentimento de ser órfão do clube do coração está presente até hoje. “Faz uma falta muito grande, até hoje o pessoal comenta que os domingos não são mais os mesmos. O domingo que a Platinense não jogava em casa, você tinha o rádio para ouvir, o pessoal também vaziam caravanas para ir assistir, quando o jogo era aqui, o estádio era bem lotado, o pessoal sente muita falta disso, tiraram um pedaço da Platinense”, comentou o radialista.

Jogando na sua casa e diante do seu torcedor, a Platinense conquistou espaço no futebol paranaense. Foto: Arquivo Pessoal.

Entre os vários jogadores destaques da Platinense, José Maria desta o meio-campo Marquinhos Ferreira como o melhor que ele viu. “São vários jogadores que passaram por aqui, mas acho que o maior jogador, um meia que hoje é difícil encontrar no futebol, o Marquinhos Ferreira, um camisa 10, foi o maior destaque que passou por aqui”, relembrou do camisa 10.

Já a partida que mais marcou, foi o do acesso para a elite do Campeonato Paranaense de 1985, contra o Rio Branco, de Paranaguá. “A Platinense jogava em casa, o estádio ficou completamente lotado, não tinha lugar para mais anda, foi um jogo decisivo, em que a Platinense tinha que ganhar, saiu perdendo, virou a partida e venceu por 2 a 1. Um jogo que marcou todo mundo da torcida Platinense”, finalizou o radialista José Maria Alves Ferreira.

Foto: Portal Tabajara.

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Jornalista, formado na Unopar em 2015. Nasci e moro em Londrina. Apaixonado por esportes. Gosto de praticar aquele futebolzinho de final de semana. Futebol não é apenas um esporte, mas sim uma forma de viver.

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