Profissão “nova” no futebol, analistas de desempenho avançam no futebol paranaense e mundial

Quem acompanha o futebol mundial ultimamente, está vendo cada vez mais a função do analista de desempenho, na maioria das vezes em conversas com o técnico e elenco ou com um computador na mão, seu principal instrumento de trabalho. Atualmente no futebol paranaense, dos 12 clubes que disputam o Campeonato Paranaense em 2019, apenas seis equipes contam com pelo menos um profissional desta área. Com a valorização do profissional, além de estarem mais presentes no futebol paranaense, alguns brasileiros começam a ganhar o mundo.

Dos 12 clubes da elite do futebol paranaense, apenas Athletico Paranaense, Coritiba, Paraná Clube, Londrina, FC Cascavel e Cianorte contam com um profissional de análise de desempenho. Além desses profissionais que estão trabalhando nos times do Estado, já tem profissional que começou aqui e está trabalhando no futebol do Emirados Árabes Unidos. O Redação em Campo conversou com Eduardo Thomaz, que iniciou no Nacional AC, de Rolândia, passou pelo Londrina e hoje está no Sharjah FC, dos Emirados Árabes Unidos, com Sílvio Shiromoto, do Londrina e com Luciano Inomata, do FC Cascavel.

Do futebol paranaense para o Oriente Médio

Eduardo Thomaz, de 22 anos, atualmente está trabalhando no Sharjah Football Club, dos Emirados Árabes Unidos. O interesse pela análise de desempenho surgiu ainda durante o processo de graduação. “O interesse surgiu através das aulas na faculdade, eu fazia graduação em Esporte (Ciência do Esporte) na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e na matéria de futebol, o professor Dedé (Ariobaldo Frisseli) apresentou rapidamente o conteúdo sobre scout, eu fui curioso e procurei saber mais, pesquisei e acabei se interessando por essa área”, disse Eduardo.

Com passagens por Nacional AC, Grêmio Araponguense e Londrina, Eduardo Thomaz hoje está no Sharjah FC, dos Emirados Árabes Unidos. Foto: Arquivo pessoal.

Após o interesse, Thomaz acabou tendo a oportunidade de estagiar na área em um dos clubes mais tradicionais do norte paranaense, o Nacional AC, de Rolândia e isso ajudou no processo de aprendizagem. “Então, tive uma rápida aprendizagem na faculdade e depois procurei artigos sobre o assunto, no final do meu primeiro ano, apareceu uma oportunidade de estágio no Nacional de Rolândia, pra ser estagiário/auxiliar do analista de desempenho, na época um veterano meu da faculdade, Gustavo Damasceno. Eu aceitei e fui me juntar a ele, e ali comecei do zero, ele me ensinou muito sobre a área de análise, desde a parte prática ate a teórica e sempre tive disposição pra aprender, sou muito grato a ele e pela oportunidade que me deu na época”, destacou o início de sua carreira.

Na função do analista de desempenho, o profissional lida com vários programas ou até mesmo o simples papel e caneta, além do trabalho no dia-a-dia, os profissionais buscam o aprimoramento através de cursos. “Hoje são utilizados diversos tipos de programas, seja um simples editor de vídeo a softwares especializados integrados com vários sistemas, lembrando que a análise vem de origem no papel e caneta, alguns ainda utilizam dessa prática. Já fiz curso online de capacitação em Análise de desempenho pela Universidade do Futebol e hoje, tenho o Nível 1 de Identificação de Talento (Scouting) pela Federação de Futebol da Inglaterra (The FA). No fim, foi um mix de aprendizagem diária com artigos e cursos, e pretendo me especializar mais”, declarou Eduardo Thomaz.

No período que passou pelo Londrina, Eduardo trabalhou com o técnico Cláudio Tencati e seu auxiliar, Aléssio. Foto: Arquivo pessoal.

Para chegar no Sharjah FC, Eduardo iniciou em dezembro de 2014 no Nacional AC, passou pelo Grêmio Araponguense, em 2015 e no ano seguinte, chegou ao Londrina. A sua ida aos Emirados Árabes Unidos foi através de uma indicação. “Foi através de indicações, o Vinicius Castelassi (hoje no Atletico PR) estava acertando a vinda pra cá e pediram mais um e ele me indicou para o Alciney Miranda (chefe do departamento de análise aqui). Alciney entrou em contato comigo e aceitei o convite”, disse o analista do Sharjah FC.

Muitas vezes, o trabalho do analista de desempenho não é conhecido pelo torcedor, mas garante resultados dentro de campo, Thomaz citou um exemplo do trabalho desenvolvido por ele. “Uma coisa recente no jogo Sharjah x Al Nasr, válido pela segunda rodada da liga nessa temporada, um dos gols foi trabalhado através das análises do adversário. Escanteio esse que obrigou o time adversário se deslocar pra fora da área, sabíamos da altura e da pontualidade dos atletas em retirar a bola daquele espaço, abrindo espaço pra podermos aproveitar a bola cruzada na área”, Eduardo revelou uma atividade trabalhada entre analista e comissão técnica.

Seguindo os passos do Eduardo Thomaz, Sílvio Shiromoto cresce dentro do Londrina

Buscando seguir os mesmos passos do amigo Eduardo Thomaz, Sílvio Shiromoto, de 22 anos, iniciou como analista de desempenho no próprio Londrina, na forma de estágio, hoje está de forma definitiva, sendo o profissional responsável pela equipe sub-19 do clube e as vezes, auxilia o profissional. “O meu início dentro da análise de desempenho foi através de estágio, sempre com a vontade de trabalhar com futebol, me interessei pela área e tive uma oportunidade de aprender e entender de perto como funciona. E com o tempo, as coisas foram acontecendo para mim. Hoje sou o analista de desempenho do sub-20 do Londrina Esporte Clube há um ano”, destacou Sílvio.

Foi através do amigo Eduardo, que Sílvio Shiromoto entrou no Londrina trabalhando com análise de desempenho. Na foto, atuando em uma partida do Londrina, no Estádio do Café. Foto: Arquivo pessoal

Para Shiromoto, além de cursos e aprendizados, o analista de desempenho deve ter uma leitura de futebol. “A formação necessária é o profissional ser um especialista em leituras de jogo e dos comportamentos das equipes, se tratando de cursos, há hoje bastante cursos que passam uma noção do que é a área e de como funciona. Exemplos são os cursos que a CBF ( Confederação Brasileira de Futebol) disponibiliza. Mas nada melhor que tudo isso, é assistir jogos, mas não com a visão de torcedor e sim, tentando entender e ver todas as relações dentro do jogo. Manter leitura de estudiosos que estudam o esporte também é de suma importância, para se manter atualizado de conceitos e modelos de análises é de suma importância para a evolução dentro da área”, destacou o analista de desempenho do sub-19 do Londrina.

Sílvio conversando com Cláudio Tencati após um treinamento. Foto: Arquivo pessoal

Nesse início de Campeonato Paranaense, Sílvio está auxiliando o analista de desempenho da equipe profissional do Tubarão, já que Nikolas Trevizo (analista do profissional) está trabalhando como auxiliar-técnico de Alemão. Através desta parceria, existe a comunicação entre o profissional que está nas cabines do estádio com o banco de reservas. “Hoje utilizamos essa comunicação dentro do CAF (Centro de Análise de Futebol) do Londrina Esporte Clube, temos protocolos para que essa troca de informação seja útil para a comissão técnica dentro do jogo”, afirmou Sílvio Shiromoto.

Para Sílvio, o resultado dentro de campo é uma junção do trabalho de todos os profissionais para poder auxiliar o treinador. “Dentro da comissão técnica, acredito que todos tem um papel de muita importância e com isso acredito que todo trabalho desempenhado em dependente do momento da temporada tem muita importância durante o processo. Com isso, toda informação gerada e passada para os atletas e comissão tem uma importância dentro do trabalho. Claro que há momentos onde tem mais evidência do que em outros, porém o meu pensamento é de que cada feedback ou informação passada, estou acrescentando no processo durante a temporada”, comentou.

Profissionalização do futebol do FC Cascavel, começa a mostrar resultados dentro de campo

Único clube que tem um profissional de análise de desempenho que não disputa competições a nível

Iniciando em 2019 sua caminhada na profissão, Luciano Inomata é um dos profissionais da comissão técnica do FC Cascavel. Foto: Sandra Zama/ FC Cascavel Oficial.

 

nacional, o FC Cascavel conta com Luciano Inomata, de 19 anos, que iniciou na Serpente Aurinegra há mais ou menos dois meses e todo esse trabalho já está sendo refletido dentro de campo. Apesar de ser seu primeiro trabalho, já buscava informações há algum tempo. “Eu iniciei há dois meses atrás aqui no FC Cascavel. No entanto, desde os meus 15 anos me interessei na área. Fiz alguns cursos e fui fazendo análises como um hobby. Entrei em contato com o pessoal do FC Cascavel ano passado, eles já tinham interesse em ter um profissional para trabalhar com isso e resolveram apostar em mim”, contou Luciano Inomata.

Inomata falou que o trabalho dele está muito ligado ao do treinador Paulo Foiani. “Cada treinador tem a sua maneira de trabalhar. Aqui no FC Cascavel, eu realizo a filmagem dos treinos técnicos e táticos, além de todos os jogos. Faço análises da nossa equipe e dos adversários. O treinador geralmente utiliza essas informações para passar para os atletas. Também auxilio na prospecção de atletas, buscando informações sobre eles”, disse o analista do FCC.

Luciano Inomata diz que é bastante requisitado pelo treinador do FC Cascavel e que alguns atletas o procuram para melhorar seu desempenho. “O treinador requisita bastante o meu trabalho, sempre estou buscando as informações que ele precisa. Em relação aos jogadores, quando necessário, eu passo algumas informações que podem contribuir para o desempenho deles dentro de campo. O treinador da autonomia para isso”, enfatizou.

Luciano Inomata em conversa com a comissão técnica durante o aquecimento das equipes. Foto: Sandra Zama/ FC Cascavel Oficial.

Mesmo sabendo seu papel de auxiliar a comissão técnica, Inomata disse que já previu algumas situações dentro de campo que foram passadas antes da partida. “Já tive um sentimento de satisfação em relação ao meu trabalho, pois analisei algumas situações que aconteceram no jogo e eu pude alertar a equipe antes. No entanto, entendo que meu papel é apenas auxiliar com as informações e somos um grupo, existe uma comissão técnica e jogadores envolvidos no resultado final da partida”, finalizou Luciano Inomata.

A função e dificuldades que os analistas de desempenho enfrentam no dia-a-dia

O analista de desempenho hoje trabalha com três vertentes fundamentais: Análise da própria equipe, análise do adversário e análise de mercado. Eduardo Thomaz esclarece a função de cada vertente do trabalho. “Analise da própria equipe está dividida em treinos e jogos, podendo ser coletada informações físicas, táticas e técnicas, e isso auxilia no dia-a-dia da comissão, durante os treinos (saber se tal trabalho teve o objetivo completo, observar postura dos atletas diante de tais ações e observar tomada de decisões individuais e coletivas). Hoje, por aqui utilizamos muito a análise pós-treino, no final das sessões, nos reunimos com o treinador e seu auxiliar pra ver lances específicos da sessão de treino do dia, eventuais correções e conversas com os atletas no dia seguinte. Na Análise de adversário, é criado um padrão de análise e feito um estudo sobre os adversários e entregue sempre no primeiro treino da preparação para o jogo, sendo assim a comissão em conjunto trabalham pra tomar as melhores decisões sobre como preparar as estratégias para o próximo jogo. Na Análise de mercado, auxilia em novas contratações e tomada de decisões da diretoria sobre certos jogadores”, esclareceu Eduardo Thomaz, analista de desempenho do Sharjah FC, dos Emirados Árabes Unidos.

Eduardo em atividade durante uma partida do Sharjah FC. Foto: Arquivo pessoal.

Já Sílvio Shiromoto, acredita que é uma profissão que está crescendo no mercado futebolístico e que ajuda muito nas equipes. “Essa função hoje dentro do futebol vem ganhando cada vez mais espaço, dentro dos clubes e muito é pelos resultados obtidos através dos trabalhos executados. São diversos auxílios que esses profissionais ou esses departamentos pode trazer para a equipe, como o controle de banco de dados dos atletas para o mercado, análises de adversários e a correção do modelo de jogo da equipe durante os jogos e treinamentos”, destacou o analista de desempenho da equipe sub-19 do Londrina.

A opinião de Luciano Inomata não é muito diferente de Eduardo e Sílvio, sobre a função do analista de desempenho. “O Analista de Desempenho monitora a performance nos treinos e jogos. Além disso, ele colabora com informações sobre os adversários que podem auxiliar na preparação para os próximos jogos”, falou o analista do FC Cascavel. O técnico da Serpente Aurinegra, Paulo Foiani falou sobre a presença do analista de desempenho. “Hoje o analista de Desempenho é fundamental no trabalho da comissão técnica, principalmente em trazer informações sobre adversários e também te trás números e percentuais da sua equipe nas partidas que facilita correções durante os treinamentos”, disse o técnico do FC Cascavel.

Os técnicos Alemão, do Londrina e Paulo Foiani, do FC Cascavel têm em comum o trabalho dos analistas de desempenho na comissão técnica. Foto: Gustavo Oliveira/ Londrina EC Oficial.

 

Para Eduardo Thomaz, a profissão ainda não está mais intrínseca dentro dos clubes, pois esbarra nos orçamentos dos clubes. “Orçamento dos clubes, as vezes muitos clubes não investem o necessário na área, o que dificulta e minimiza as informações coletadas e compartilhadas”, argumentou Thomaz. O atual técnico do Londrina, Alemão, comentou sobre a parte orçamentária para está função. “Na verdade é um gasto que não é tão alto assim, um profissional deste nível não tem um salário muito alto, mas por outro lado, é uma profissão nova, os clubes que não disputam Série A, B, C ou D do brasileiro, dificilmente tem esse profissional, porque eles montam o elenco por um período muito curto de trabalho, é uma tendência a crescer e os clubes precisam ter essa consciência de investir nessa profissão, que sem dúvidas, ajudam muitos os treinadores e consequentemente, os clubes”, finalizou o técnico do Londrina.

Foto: Arquivo pessoal do Eduardo Thomaz.

Siga em:
Eliminação, virose
Foz do Iguaçu FC pe

Jornalista, formado na Unopar em 2015. Nasci e moro em Londrina. Apaixonado por esportes. Gosto de praticar aquele futebolzinho de final de semana. Futebol não é apenas um esporte, mas sim uma forma de viver.

Classifique este artigo