O dia em que Brandão e Garcia calaram o Estádio de São Januário

Há 40 anos, após vencer o Corinthians no maior público do Estádio do Café, o Londrina viajou até o Rio de Janeiro para decidir sua vida no Campeonato Brasileiro de 1977. A partida contra o Vasco da Gama, foi no Estádio de São Januário, no dia 19 de fevereiro de 1978, colocaria um dos dois times na semifinal daquela competição. O Tubarão tinha nove pontos ganhos e o clube carioca, dois pontos a menos. Em caso de vitória simples da equipe cruzmaltina, os clubes empatariam em pontos e a vaga seria decidida nos critérios de desempate. Se o time de Roberto Dinamite vencesse por dois ou mais gols, o Vasco estaria nas semifinais.

O jogo era esperado com tanta expectativa, que se criou um clima de guerra no Estádio São Januário. Naquela tarde, foi registrado o maior público daquela praça esportiva, com 40.209 pagantes abarrotados nas arquibancadas de São Januário. Como lembra o lateral-esquerdo Dirceu, a torcida do Vasco tinha uma fama não muito boa. “A torcida do Vasco tinha a fama de fazer pressão, todo time faz, mas a do Vasco era mais agressiva”, relembrou o autor de uma assistência naquela partida.

Nesta partida, ficou registrado o maior público da história do Estádio de São Januário, mais de 40 mil pessoas abarrotadas nas arquibancadas. Foto: Acervo da Folha de Londrina.

O atacante Brandão, se recorda que quando chegaram aos vestiários de São Januário naquele dia, havia um “presente” feito por vascaínos esperando os atletas do Londrina. “Quando nós entramos em São Januário, tinha uma macumba e nós éramos todos sistemáticos, aí os caras pararam, ninguém queria entrar no vestiário, então eu olhei e tinha bastante sal grosso, aí falei ‘gente vamos entrar tranquilo, então me perguntaram o porquê, eles fizeram isso, mas fizeram contra eles mesmo, porque o sal é puro, então o sal corta tudo que é mal’ e dentro da macumba tinha dois nomes escritos Garcia e Brandão e quem fez os gols, Brandão e Garcia, quer dizer que o feitiço virou contra os feiticeiros”, lembra com muito humor de um fato anterior a partida.

O jogo

Com uma pressão enorme, a partida começou, de um lado, um time motivado a vencer com o apoio maciço de sua torcida para ir a uma semifinal de Campeonato Brasileiro com grandes nomes no elenco, como: Mazarópi, Gaúcho e Roberto Dinamite. Do outro, o azarão, que iria tentar garantir um resultado que lhe renderia entrar para a história e assim o fez.

A partida se iniciou, no Tubarão, um grande desfalque, o goleiro Paulo Rogério estava fora do jogo por suspensão, então seu reserva, Mauro foi o titular e para Carlos Alberto Garcia, foi o melhor jogador da partida. Com oito minutos de partida, Xaxá desarmou o adversário no campo de defesa e lançou para Brandão entre os dois zagueiros, o camisa nove do Tubarão saiu de frente com Mazarópi, que precipitadamente saiu de sua grande área e Brandão bateu para o gol, abrindo o placar em São Januário e colocando um silêncio ensurdecedor no estádio vascaíno.

A partir do gol dos visitantes, só deu Vasco na primeira etapa, com chances criadas por Roberto Dinamite e Abel, onde a estrela de Mauro começou a brilhar naquela partida. No segundo tempo, a história não mudou, novamente no embate entre Dinamite e Mauro, o arqueiro Alviceleste levou a melhor. Aos 4 minutos da etapa complementar, Dirceu foi cobrar uma falta colada à lateral-esquerda, mas foi difícil, pois a torcida do Vasco atirava chinelos, garrafas e outros objetos para dentro de campo, impedindo a cobrança da falta. “Já estava 1 a 0 para nós, quando fui bater a falta, jogaram garrafas, então chamei o árbitro, então voltei para cobrar rápido”, disse Dirceu.

Na cobrança “errada” da falta feita por Dirceu, Garcia dominou com a perna direita na entrada da área e de esquerda, colocou a bola lá onde a coruja dorme, fazendo o segundo gol do Londrina, no Rio de Janeiro. “Eu quis dar um três dedos para pegar curva ao contrário do goleiro e para entrar na área, mas acabei errando, o Garcia não entrou na área e  a bola foi rasteira, ele dominou e chutou, tinha que dar certo”, comentou o ex-lateral-esquerdo.

Conforme o tempo de jogo passava e o placar desfavorável, o Vasco se lançava ao ataque, mas parava em Mauro. Nos lances finais, Dinamite carimbou a trave depois de bela defesa de Mauro e na sequência, Abel acertou o travessão do Londrina. Os últimos minutos foram muito tensos, em um princípio de confusão na linha de fundo, uma garrafa foi atirada em direção dos jogadores e acertou o lateral-direito do Vasco da Gama, Orlando, que desabou no chão.

Ainda antes do apito final, uma confusão do lado de fora do campo, entre seguranças do Vasco e a comissão técnica do Londrina, paralisou a partida. Com o apito final do árbitro, os jogadores do Tubarão nem comemoraram, apenas correram para dentro dos vestiários com medo de uma invasão da torcida cruzmaltina. “Nós sabíamos que estávamos melhor que o Vasco, mas individualmente, o Vasco era melhor que nós, mas no coletivo, foi show! Xaxá voltando para marcar, Nenê e eu pegava na bola e entrava na área. O Brandão fez um, eu fiz dois e ganhamos. Lá foi um jogo histórico, porque ganhamos, porque foi recorde de público até os dias atuais e vencemos o Vasco lá que ninguém acreditava”, lembrou da partida Carlos Alberto Garcia.

Partidas contra o Atlético Mineiro

Depois de uma classificação épica no Grupo S, onde venceu todos seus adversário dentro do grupo, o Londrina partiu para as semifinais do Brasileirão de 1977. Pela frente no sonho de buscar o título, o Atlético Mineiro que era comandado pelo atacante Reinaldo. Para Garcia, o primeiro jogo da semifinal foi a melhor partida do campeonato. “Muita emoção em Minas Gerais, o melhor jogo do campeonato, mais de 100 mil torcedores no Estádio do Mineirão. Sempre falo isso, se o Reinaldo não tivesse jogado, o Londrina era no mínimo vice-campeão brasileiro”, enfatizou o ídolo do Londrina.

Com quase 100 mil pagantes no Mineirão, o Londrina acabou derrotado pelo Atlético Mineiro, em um dia iluminado do atacante Reinaldo. Foto: Acervo da Folha de Londrina.

No primeiro jogo, para quase 100 mil pagantes, o Tubarão visitou o Galo e perdeu por 4 a 2. Ziza fez um e Reinaldo marcou os outros três gols do clube mineiro. A dupla Brandão e Garcia marcaram para o Alviceleste. Na volta, mesmo sem contar com Reinaldo, o Galo mineiro segurou o resultado em 2 a 2 e foi para a final. No Estádio do Café, Caio Cambalhota e Serginho abriram 2 a 0 para o Atlético Mineiro, mas Brandão e Ademar buscaram o empate do Tubarão.

FICHA TÉCNICA
VASCO DA GAMA X LONDRINA

Vasco da Gama: Mazarópi; Orlando, Abel, Gaúcho e Marco Antônio; Zé Mário, Paulo Roberto e Guina; Wilsinho, Roberto Dinamite e Ramon (Paulinho).
Técnico: Orlando Fantoni.

Londrina: Mauro; Claudinho, Carlos, Arenghi e Dirceu (Zé Antônio); Zé Roberto, Carlos Alberto Garcia e Ademar; Xaxá, Nenê (Sérgio Américo) e Brandão.
Técnico: Armando Renganeschi.

Local: Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro
Data/ Horário: 19/02/1978, às 17h
Árbitro: Maurílio José Santiago (MG)
Assistentes: Jarbas de Castro Pedra e Vilmar Reis

Público/ Renda: 40.209 pagantes/ Cr$ 1.356.270,00.
Cartão amarelo: Arenghi e Nenê (Londrina)
Gols: Brandão aos 8’ do 1º tempo e Carlos Alberto Garcia aos 4’ do 2º tempo (Londrina).

Foto: Acervo da Folha de Londrina.

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Jornalista, formado na Unopar em 2015. Nasci e moro em Londrina. Apaixonado por esportes. Gosto de praticar aquele futebolzinho de final de semana. Futebol não é apenas um esporte, mas sim uma forma de viver.

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