Londrina e a “maldição do Estádio do Café”

Durante a história do Londrina, principalmente após a construção do Estádio do Café, jogar “em casa” sempre foi um dos pontos fundamentais para o sucesso do Tubarão. Podemos relembrar as decisões dos estaduais de 1981 e 1992, além da Taça de Prata de 1980, todas decididas no Estádio do Café e da campanha no Brasileiro da 1977. Até a volta do Londrina à Série B, em 2016, o Tubarão era forte como mandante, principalmente nas competições nacionais, onde em 2013, 2014 e 2015 perdeu apenas uma partida dentro de casa em Campeonatos Brasileiro das Séries D e C. Apesar da preocupação com o aumento de resultados negativos dentro de casa, o Londrina começa a conviver com públicos muitas vezes abaixo de mil pagantes, um dos reflexos das poucas vitórias dentro do Estádio do Café.

“Maldição do Estádio do Café”

Desde que a gestão de futebol do Londrina foi assumida pela empresa SM Sports, comandada por Sérgio Malucelli, o clube saiu da Divisão de Acesso do Campeonato Paranaense para a Série B do Campeonato Brasileiro, além de vencer a Copa da Primeira Liga, com grandes clubes brasileiros envolvidos. Só que por outro lado, a média de público e o aproveitamento dos pontos jogando perante o seu torcedor vem diminuindo ano a ano.

Na final da Copa do Primeira Liga, o Londrina colocou o maior público no Estádio do Café, dos últimos dois anos. Foto: Gustavo Oliveira/ Londrina EC Oficial.

Um grande exemplo disso foi na última partida do Londrina no Estádio do Café, na quinta-feira (12), contra o Avaí, derrota por 2 a 1 e público pagante de 425 torcedores, o pior da era SM Sports. Mesmo sabendo que o horário das 18h é desfavorável, não acredito em um número grande de torcedores se a partida fosse em um horário mais tarde. Dos 15 jogos em 2018 no Estádio do Café, em seis o Tubarão teve público menor que mil torcedores. Neste ano, o maior público do Alviceleste foi num feriado à tarde e com promoção de ingressos contra o Fortaleza, onde 4.511 torcedores pagaram para assistir à partida.

Falar que a torcida não está comparecendo ao estádio por conta da campanha, é mentira, pois nos dois últimos anos brigando pelo acesso até as últimas rodadas, o Londrina não conseguiu levar mais de 10 mil torcedores ao Café. Tirando a semifinal e final da Copa da Primeira Liga, o Tubarão não coloca mais de 10 mil pessoas há dois anos, quando enfrentou o Vasco da Gama, muito mais pelo adversário do que a importância da partida. A última vez que lotou o Estádio do Café foi em 2015, na partida que garantiu o acesso à Série B contra o Confiança.

Torcida x SM

A relação entre os torcedores e o gestor Sérgio Malucelli a cada dia que passa fica mais desgastada, ambas as partes reclamam da outra, muitas vezes com razão e outras nem tanto, porém considero que o torcedor tem muito mais razão que o gestor. Com quase oito anos à frente do Londrina, o clube não conseguiu fazer um plano de sócio-torcedor descente e que valorize o maior cliente do clube, que é o torcedor. Sabemos como está defasada a estrutura do Estádio do Café e os preços altos no ingresso, estacionamento e produtos de consumo que afastam o torcedor, que para colaborar, enfrenta uma crise financeira no país. O afastamento do clube, jogadores e de ações com o torcedor também reflete nos públicos pífios que frequentam a praça esportiva. Em 2018, foi prometido um time forte que brigaria por todas as competições que disputava, foi figurante do campeonato estadual, eliminado na segunda fase da Copa do Brasil e até o momento briga contra a degola na Série B.

O gestor Sérgio Malucelli nos últimos anos entrou em confronto várias vezes contra a torcida e a relação de ambos é vista nos públicos baixos do Tubarão.. Foto: Robson Vilela/ Redação em Campo.

Muitos ex-jogadores do Londrina já disseram que a torcida do Londrina muitas vezes só comparecia nas “horas boas” ou nas decisões e olhando para o histórico recente, isso é verdade. A cidade que cede o nome ao clube parece pouco se importar com o “filho” mais famoso. Se financeiramente os jogos dão prejuízo ao gestor, as empresas da cidade pouco apoiam o clube, já que das empresas que estão estampadas na camisa, apenas uma é oriunda da cidade, as demais têm até sedes aqui, mas são de outras cidades paranaenses ou brasileiras.

Das atuações dentro de casa, na época do técnico Cláudio Tencati, falavam que as equipes eram muito defensivas e por isso sofriam com as escalações mais cautelosas de seus adversários no Estádio do Café. Em 2018, o Tubarão já está no seu terceiro técnico e os números são piores do que de Tencati, isso com a base da maioria das partidas no Campeonato Paranaense, onde o nível técnico é inferior ao nacional.

Hora de voltar por VGD?

Na parte da brincadeira, desde que foi trocado o gramado do Estádio do Café e o Londrina ficou praticamente quatro meses sem jogar lá e nos dois primeiros jogos, duas derrotas, o Tubarão não conseguiu repetir boas atuações e resultados no local. A volta para o Estádio Vitorino Gonçalves Dias, ajudaria para minimizar a visão de estádio vazio que o Café passa todo jogo, porém, acredito que a gestão do Londrina não pretende utilizar o estádio e para deixá-lo em condição de liberação para jogos, o clube deveria desembolsar um bom dinheiro para reformar o VGD e para que atinja o número mínimo exigido pela CBF de lugares para ser liberado, que é de 10 mil. A última vez que o estádio foi liberado em 2016, foi com capacidade máxima de 5 mil pessoas.

Após ter ficado sete anos sem jogos, o Estádio Vitorino Gonçalves Dias (VGD), recebeu alguns jogos do Paranaense de 2016, desde então, o local serve para a escolinha do Londrina. Foto: Robson Vilela/ Redação em Campo.

Tirando o ano de 2012, na volta do Londrina a elite estadual, nos demais anos o aproveitamento de pontos do clube em casa pode ser considerado bom. Em 2011, primeiro ano da gestão SM Sports, o aproveitamento foi de 80 %. No ano seguinte, só disputando o Campeonato Paranaense, o aproveitamento caiu para 54,5% dos pontos. Em 2013, o maior índice, onde aquela grande equipe que disputou o estadual e Série D, ganhou 74,5% dos pontos disputados em casa. No ano do título estadual, volta a Copa do Brasil e acesso para a Série C, o aproveitamento foi de 70,1%. No ano de 2015, o Tubarão teve um aproveitamento de 65,1%, isso que o clube disputou quatro partidas com portões fechados e uma em Maringá. Já a média de público do Alviceleste girou na casa dos seis mil torcedores.

Em 2015, pela Série C, pagando punição, o Tubarão jogou em Maringá e levou mais de 1.500 torcedores, mais que o triplo do último jogo em casa em 2018. Foto: Robson Vilela/ Redação em Campo.

Em 2016, com a volta do clube a Série, B o aproveitamento de pontos caiu como a média de público. O Londrina aproveitou 59,7% dos pontos e teve uma média de público superior a quatro mil torcedores por jogo. No ano de 2017, o aproveitamento subiu e também foi o ano com o maior número de partidas disputadas, onde 32 jogos foram realizados no Estádio do Café. O Tubarão aproveitou 64,5% dos pontos e teve uma média de público abaixo dos três mil pagantes. Neste ano até o momento, em 15 jogos disputados, o Londrina tem 42,2% dos pontos aproveitados, desde 2011, o primeiro inferior a casa dos 50%. Apesar de ser considerado números bons, acima de 50%, essas estatísticas levam em conta todos os jogos oficiais dentro de uma temporada dentro de casa, nas últimas Séries B, os números são inferiores a de toda a temporada.

Não acredito que com a melhora da campanha do Londrina na Série B e em casa, levaria mais torcedores ao Estádio do Café. As inúmeras rusgas entre torcida e gestor chegou em um ponto que não tem mais entendimento. O afastamento do time com a torcida é outro ponto a ser destacado, os jogadores não cumprimentam mais a torcida antes do jogo e raramente fazem algum gesto direcionado ao torcedor após os 90 minutos, fica um clima de jogo longe de casa. A cidade de Londrina também não vai contribuir para isso, se não apoiou em uma possível volta à elite nacional nos dois últimos anos, não será em um momento ruim que ela irá apoiar. Sobre o futuro do Londrina é complicado dizer, um time que joga em casa num campo neutro e com dificuldades de relação entre diretoria e torcida. O que se pode torcer é para pelo menos se manter na Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.

Foto: Robson Vilela/ Redação em Campo.

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Jornalista, formado na Unopar em 2015. Nasci e moro em Londrina. Apaixonado por esportes. Gosto de praticar aquele futebolzinho de final de semana. Futebol não é apenas um esporte, mas sim uma forma de viver.

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