Entrevista: Roberto Costa, ex-goleiro conhecido como “Mão de Anjo”

Por Bruno Zanette, especial para o Redação em Campo

O ex-goleiro Roberto Costa Cabral fixou residência em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, em 1998, mas tem como planos em breve morar novamente em Curitiba, para ficar mais próximo dos filhos e da família. Nascido na cidade de Santos, litoral paulista, em dezembro de 1954, não poderia torcer por outro time, senão o Santos Futebol Clube, onde teve a oportunidade de jogar na equipe de juniores entre os anos 1972 e 73. Era o sonho de menino se realizando, ao concentrar em algumas partidas com a equipe principal, ao lado de jogadores consagrados como Carlos Alberto Torres, Edu, Clodoaldo e o maior de todos os tempos, Pelé.

Na equipe santista Roberto Costa ficou pouco tempo. Consagrou-se mesmo nas importantes passagens que teve pelo Atlético-PR e Vasco da Gama (RJ), na década de 80. Teve uma rápida passagem pelo Coritiba. Chegou a ser convocado para a seleção brasileira e entrou para a história do futebol brasileiro como o único goleiro a conquistar dois prêmios Bolas de Ouro da Revista Placar, em 1983 e 84, pelo Furacão e Vasco.

Considera como melhor defesa de sua carreira, uma que fez em um chute a queima-roupa de Zico, no Maracanã, na semifinal do Campeonato Brasileiro de 83. Pena que a defesa não evitou a derrota por 3 a 0 para o Flamengo, que acabou se sagrando campeão contra… o Santos, do torcedor Roberto, que virou Costa ao se transferir para o time cruzmaltino, onde lá já reinava outro Roberto, o Dinamite.

Após se aposentar dos gramados, no início dos anos 90, Roberto Costa foi preparador de goleiros, treinador, jogou campeonato Amador e agora é secretário de Esportes em Foz do Iguaçu. Mas o próprio admite: “É muito mais fácil ser jogador ou treinador, do que assumir uma secretaria”. Em uma manhã de sábado no final de 2016, no Estádio do ABC, em Foz, Roberto Costa concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao Redação em Campo, que você confere abaixo. Nela ele fala da carreira, a nova vida como secretário, a recente tragédia com a Chapecoense e, claro, opina sobre futebol.

Redação em Campo: Fale um pouco sobre o seu início de carreira no futebol, começando pelo clube da sua cidade natal, o Santos Futebol Clube.

Roberto Costa: A minha carreira eu comecei no Santos Futebol Clube, mas comecei um pouco tarde para a época, com 18 anos, pois antes eu trabalhava. Eu era bancário e me convidaram para fazer uma avaliação no Santos, em novembro de 1972 e fui aprovado. Lembro até hoje que o técnico era Francisco Aguiar, o Chico Formiga. E já pediu meus documentos para fazer a inscrição e entrar para o grupo Juvenil B, dos 16 a 18 anos, e na época também tinha o Juvenil A, dos 18 a 20 anos. Aí larguei minha profissão de bancário e fui seguir minha carreira de goleiro.

RC: Chegou a conviver um pouco com o Pelé nas concentrações? Se sim, como era a convivência com ele no dia a dia?

Roberto Costa: Nos dois primeiros anos no time de Juniores, em 72 e 73, eu tive a oportunidade de concentrar junto com a equipe profissional e tive o prazer de me concentrar em três ou quatro jogos, se não me falha a memória, junto com Pelé, Carlos Alberto Torres, Edu, Clodoaldo, todo esse pessoal que fazia parte do Santos e eu era natural de Santos, desde os 6 anos torcedor, sócio do clube, então pra mim foi um prazer e uma honra imensa de ter conseguido jogar com os meus ídolos, atletas que jogavam lá e eu assistia e para mim foi um sonho realizado.

Roberto como goleiro do Atlético-PR na década de 80. Foto: arquivo pessoal

RC: O seu primeiro grande destaque no futebol foi no Atlético Paranaense, no começo dos anos 80, junto com Washington, Assis e tantos outros craques. Como foi esse período para você?

Roberto Costa: Eu fui para o Atlético a primeira vez em 1978, vindo do Comerciário, hoje Criciúma, junto com o técnico na época, Ciro Castro Flores e o supervisor, o Miro Andrade. Em 78 o Atlético perdeu a final do Paranaense para o Coritiba, após três jogos empatados em 0 a 0, perdendo a decisão nos pênaltis, com o Manga, goleiro do Coxa, pegando algumas penalidades. Em 1981 fui emprestado por três meses ao Coritiba para disputar a Taça de Prata. Chegamos até as semifinais, fui o goleiro menos vazado do torneio, e após o fim do meu contrato, o Coritiba não comprou meu passe e voltei para o Atlético. E em 1982 a diretoria começou a formar aquele grande time na memória de todos os atleticanos, com Washington, Assis, Capitão, Jorge Luiz, Jair Gonçalves, Bianchi, Lino, Ariovaldo, Sérgio Moura, acho que um dos melhores elencos do Atlético de todos os tempos. E aí fomos campeões paranaenses em 82 e em 83. Fizemos aquela campanha no Brasileirão de 83, onde fomos eliminados nas semifinais para o Flamengo, que acabou se sagrando campeão contra o Santos e em agosto de 83 fui transferido para o Vasco da Gama.

RC: Você foi o único goleiro do Brasil a conquistar duas Bolas de Ouro da Revista Placar, de maneira consecutiva, em 1983 e 84. Fale um pouco mais sobre estes prêmios.

Roberto Costa: Em 83 ganhei com o Atlético, estive na seleção da revista placar, o que garante a Bola de Prata, e quem tem a melhor média de avaliação entre todos os 11 jogadores, leva também a Bola de Ouro. Em 84, com o Vasco, a mesma situação, também tive a honra de ter sido eleito o melhor goleiro e ter obtido a maior média entre todos. Um goleiro obter duas bolas de ouro, e ainda de maneira consecutiva, acredito que somente eu.

RC: No Vasco da Gama você passou a usar o nome pelo qual ficou conhecido, Roberto Costa, para não confundir com outro Roberto no time, um tal de Roberto Dinamite (risos). Procede essa história?

Roberto Costa: Para você ver, no Santos e no Comerciário me chamavam apenas pelo sobrenome Cabral. Quando fui para o Atlético, passaram a me chamar de Roberto, e em 83 quando fui para o Vasco, colocaram Roberto Costa, por causa do Roberto Dinamite para não confundir. E aí fui até o final da carreira e hoje, quase todos me conhecem como Roberto Costa.

RC: Enquanto esteve no Vasco veio a primeira e única convocação para a seleção brasileira, em um amistoso contra a Inglaterra em 84, derrota por 2 a 0 no Maracanã. Acha que esse resultado pesou para não ser chamado em novas convocações?

Roberto Costa: O técnico da seleção brasileira na época era o Edu Coimbra, irmão do Zico, inclusive técnico também do Vasco da Gama, e a seleção estava passando por uma reformulação. Fomos convocados para três jogos – Inglaterra (Rio de Janeiro), Argentina (São Paulo) e Uruguai (Curitiba). O primeiro jogo nós perdemos contra a Inglaterra, 2 a 0. Empatamos o segundo com a Argentina e ganhamos do Uruguai. Eu acho que não só pela derrota que deixei de ser convocado, mas o próprio Edu que não teve mais chances de trabalho, em função dos resultados que houve e talvez não agradaram a direção da CBF e eles resolveram novamente mudar, trazendo o Telê Santana de volta para a Copa de 86. Acredito que o objetivo de todo jogador, ou qualquer criança que um dia vá jogar futebol é ser convocado para a seleção brasileira e disputar uma Copa do Mundo. Mas você já tendo o prazer de ser convocado entre tantos atletas existentes no país e vestir a camisa da seleção brasileira é motivo de orgulho para qualquer um.

RC: Você encerrou sua carreira de jogador no final dos anos 80, começo dos anos 90 e foi trabalhar como preparador de goleiros?

Roberto Costa: Depois do Vasco, eu tive uma passagem pelo Inter de Porto Alegre (RS), onde fiquei sete meses e no período surgiu no time aquele, que para mim foi o melhor goleiro do Brasil, chamado Taffarel. Aí foi quando eu percebi que não tinha como eu ficar lá, caso contrário ia curtir o banco de reservas até o final da minha carreira (risos). Rescindi o contrato, eles me emprestaram para o América de Rio Preto (SP), joguei no América, voltei para o Atlético Paranaense, depois fui para o interior de São Paulo, interior de Minas, fui a Brasília, joguei no Taguatinga, onde o time foi campeão depois de 10 anos e encerrei a minha carreira na Caldense (MG), em 1990. Terminei a carreira também em função de contusão no joelho, problema de ligamentos e teria que fazer uma cirurgia e já estava com 35 para 36 anos, achei por bem parar, pois naquela época a recuperação levaria de 8 a 9 meses, e voltar com 36 para 37 anos não sei se voltaria em alto nível, da maneira como eu jogava, então resolvi parar. Eu morava em Curitiba. Fiquei 1 ano e meio vendo o que eu ia fazer, até cheguei a trabalhar como vendedor, pois naquela época não se ganhava tanto dinheiro como jogador como se ganha hoje, então precisava manter alguma atividade econômica. Em 92 me convidaram para jogar futebol amador em Curitiba, um dos mais fortes do país. Tive o prazer de jogar no Vila Fanny, onde fomos campeões Amador, da Suburbana bicampeão, campeão Sul Brasileiro, da Taça Paraná e no Fanny mesmo comecei minha carreira de técnico e trabalhava, também, como preparador de goleiros nas categorias de base do Paraná Clube. Em 1995 o Paulo César Carpegiani assumiu o Coritiba e ele me chamou para ser treinador de goleiros do Coxa. Naquele ano de 95 subimos para a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro, fomos vice-campeões paranaenses, num período em que o Paraná Clube dominava o estado e fiquei até 1997 como preparador de goleiros, transferindo-me depois para o Londrina, onde disputamos a Série B do Campeonato Brasileiro e em 1998 eu vim para Foz do Iguaçu, onde estou até hoje. Fui treinador de goleiros em um time do Foz durante dois anos. Em 1999, durante a Copa América do Paraguai, fui fazer uma visita aos amigos que tenho na seleção brasileira, e que ficaram hospedados em Foz do Iguaçu. Encontrei o falecido técnico Lori Sandri, foi num sábado, depois do jogo Brasil x México, e o Lori perguntou o que eu estava fazendo aqui. Eu tinha trabalhado com o Lori como atleta e ele como técnico no Atlético Paranaense, e eu como treinador de goleiros e ele treinador no Coritiba. Aí eu disse que tinha acabado de sair do Foz, trabalhando com categorias de base e ele me fez o convite para ir para Arábia Saudita, ele estava indo para lá treinar um time. Eu disse ‘vamos’, então pediu para eu mandar um currículo para São Paulo, mandei no domingo mesmo, na segunda fui aprovado e mandaram a resposta que a passagem estava comprada para eu embarcar na quinta-feira para a Arábia Saudita, onde fiquei duas temporadas. Tive uma passagem no Catar, antes de voltar ao Brasil, onde me fixei em Foz e fiquei alguns anos parado com o esporte. Já treinei também o Araguaína, classificando o time para as finais, mas após divergências com a diretoria e algumas brigas, larguei o time.

RC: Sua passagem como técnico do Foz Futebol Clube foi rápida em 2008, somente três partidas na Divisão de Acesso. Acha que faltou um pouco de paciência da diretoria com o seu trabalho?

Roberto Costa: Não acho que faltou paciência, talvez o modo como foi feito não tenha sido da maneira correta. Mas eles tinham todo o direito de mudar, se achassem necessário. Os resultados não estavam vindo (1 vitória e duas derrotas), quanto a isso não tenho nada contra. Acho que fizeram aquilo que acharam que deveriam se fazer.

RC: Você treinou recentemente o time feminino do Foz Cataratas. Gostaria que explicasse aos leitores se há muita diferença no trabalho com times masculinos e femininos.

Roberto Costa: É uma experiência totalmente diferente do que trabalhar com homens ou garotos. Você precisa ter uma atenção maior, uma conversa maior dos próprios problemas femininos, mas eu gostei, pois tive um relacionamento muito bom com as atletas. São atletas, às vezes até mais carentes do que os homens e por isso precisam de uma atenção maior, mas foi um trabalho gratificante.

Nota do Editor: Roberto foi preparador de goleiras em 2015, depois assumiu o time do Foz Cataratas como treinador. Seguia bem na segunda fase do Campeonato Brasileiro de 2016, quando saiu do time para assumir a Secretaria de Esportes de Foz do Iguaçu, a convite da prefeita em exercício, Ivone Barofaldi (PSDB).

Roberto está na Secretaria de Esportes de Foz do Iguaçu desde 2016. Foto: Bruno Zanette

RC: O que é mais difícil: ser goleiro, treinador ou secretário de Esportes?

Roberto Costa: Na situação em que encontrei a secretaria de Esportes, era bem melhor ser goleiro, treinador ou treinador de goleiros. Primeiro porque assumir uma secretaria no meio do mandato, ou quase no final, não dá para fazer as coisas que gostaria de fazer de imediato com sua equipe de trabalho e com as pessoas de sua confiança. Além disso, a cidade enfrentou sérios problemas políticos, prefeito e secretários presos, uma situação difícil até para a gente falar. A situação financeira do município não é das melhores e não ter condições de agir, somente tendo que fazer cortes e mais cortes, ficando marcado como o secretário que não deu apoio, cortou investimentos, e tudo mais. Nem sempre as pessoas entendem o que se passa, não imaginam o quanto é difícil trabalhar no setor público. É muita burocracia, demorado. O que deveria ser imediato acaba ficando para depois, e aí fica de maneira irregular, não como deveria, esperando licitações e uma série de coisas, mas é bem mais fácil você jogar e ser treinador.

RC: Você ainda joga o Campeonato de Veteranos da Arevefi? Sempre jogou pelo ABC? É sócio do clube?

Roberto Costa: Não sou sócio, mas jogo há muitos anos pelo clube, treinei as categorias de base junto com o Ivan e o Bilu. Quando vim para Foz em 98, existia uma equipe de Veteranos, o Aliados, que ganhava tudo. Joguei no Aliados, o time acabou e fui para o ABC, onde a maioria dos que jogavam nos Aliados, jogavam no ABC. Tive uma passagem pelo Flamengo Esporte Clube, onde trabalhei nas categorias de base, disputamos o Paranaense, tinha o futsal, era um projeto bom. Isso era 2002 ou 2003, depois voltei ao ABC, onde estou até hoje.

RC: O acidente com o avião da Chapecoense pegou todos nós de surpresa e nos deixou muito triste. Com você, claro, imagino que não foi diferente. Conhecia pessoalmente muitos dos envolvidos na tragédia?

Roberto Costa: Foi muito triste. Eram companheiros, atletas, que perderam a vida numa ignorância do ser humano, na avareza de querer economizar uma quantia em dinheiro para não abastecer e acabar com os sonhos de 71 pessoas. Não tem explicação. Só Deus sabe o motivo, mistérios que jamais saberemos dos seus propósitos. É triste para a família e pessoas que ficaram, pais que perderam filhos, filhos que perderam pais, é lamentável. Rezamos para que Deus conforte o coração dos familiares e torcemos para que a equipe da Chapecoense com o apoio de todos possa se reerguer e que nós, do futebol brasileiro, com todas as manifestações que ocorreram, inclusive no Estádio Couto Pereira, algo lindo que eu jamais tinha visto, que isso possa servir de lição, embora seja triste, mas que os torcedores aprendam que futebol não é uma briga, luta de MMA nem nada. Isso aqui é o futebol que as pessoas precisam vir para torcer, apreciar, e para valorizar o que estão vendo. Tive grandes amigos que perderam a vida, entre eles o comentarista Mário Sérgio, onde cheguei a jogar contra ele. O próprio Caio Junior eu conhecia bem, também as pessoas que trabalhavam com ele, mas é vida que segue e que a Chapecoense e o futebol brasileiro possam crescer e as pessoas se conscientizem de que o futebol é uma arte para ser apreciado e não para ir a campo para brigar e a se matar.

RC: Concorda com a frase do Renato Portaluppi, de que “quem precisa estudar futebol, vai para a Europa, o esporte não se desaprende”? Os técnicos não precisam se renovar?

Roberto Costa: Ele falou isso, mas duvido que ele não se atualize, não vá pesquisar treinamentos, não assiste a diferentes jogos na TV. Evidente que assiste. O que ele disse, entendo como uma crítica aos que falam que só pode ser treinador de futebol quem só estuda. Nessa parte eu concordo com ele. Não é só estudo. Você tem que ter estudo, conhecimento, a parte teórica, mas também tem que ter a prática. Você conseguindo conciliar as duas coisas, torna-se uma pessoa completa, vai se dar muito melhor no dia a dia, com quem só tem a parte teórica, por nunca ter estado no campo, não saber como acontece. Até quem já foi jogador, tem que ter a parte teórica para passar aos seus atletas o que você sabe, para que eles tenham confiança naquilo que você está tentando implantar. Acho que o que ele quis dizer foi isso, não desmerecendo quem vai buscar conhecimento, que fazem cursos no exterior. Ele quis falar que todos têm o seu espaço.

RC: Quais os projetos do Roberto Costa para o ano de 2017?

Roberto Costa: Iniciamos o ano sem saber como será o futuro da secretaria de Esportes, por conta da indefinição política do município, já que o prefeito que seria eleito, não poderá assumir após decisão do TSE. Vamos aguardar a definição, se vão precisar de mim tanto como secretário, ou em outra função, e caso não apareça nada de novo, até mesmo no futebol, pretendo voltar a morar em Curitiba em um futuro próximo, onde está a maioria dos meus filhos e da minha atual esposa, ficar mais próximo da família.

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